Hoje vamos visitar uma Associação de Solidariedade Social onde decorre uma formação de adultos para desempregados.
Vamos tentar entrevistar os formandos e saber qual o sentimento que os domina e a forma como estão a encarar esta situação ao fim de tantos anos sem frequentarem à escola.
De volta à escola – Depois de quantos anos sem frequentar a escola voltou às carteiras da aprendizagem?
Formando – Acabei a escola primária, ou seja a 4ª classe, precisamente há 48 anos, depois disso ainda frequentei durante dois anos a Escola Comercial Oliveira Martins, no período nocturno, mas fui obrigado a desistir, porque não era fácil conciliar trabalho e estudos.
De volta à escola – Que lembranças tem daquela escola que deixou há anos? Que diferenças encontra entre essa e a que frequenta agora?
Formando – São diferenças totais. Por exemplo, a forma das salas, antes eram as tradicionais carteiras, com os tinteiros onde molhávamos a caneta de aparo e ficávamos com as mãos borradas de tinta e a respectiva bata também. Hoje são mesas de trabalho… bem diferente! Por outro lado, a forma de ensino, antes era rígida, sem qualquer tipo de relacionamento, hoje somos tratados com respeito e podemos intervir, somos ouvidos e podemos dar a nossa opinião.
De volta à escola – As diferenças sociais num contexto de formação eram mais relevantes quando criança ou agora em adulto?
Formando – Eram grandes as diferenças sociais, recordo os meninos de famílias ricas ficarem numa só fila e separados dos outros… Notava-se um tratamento diferente também, na hora do recreio… eu levava um pão do dia anterior, muitas vezes sem nada dentro, e os tais meninos com boa fruta, especialmente bananas que eu só comia em dias de festa. Muitas vezes, chegava molhado da chuva porque andava mais de 30 minutos a pé para chegar à escola, os outros não tinham esses problemas: os pais levavam-nos e iam buscá-los de carro… Enfim… tantas outras coisas que nem vale a pena recordar.
De volta à escola – Há diferenças de faixas etárias, mesmo de gerações, num mesmo grupo… como lida com a situação?
Formando – É verdade, há mesmo grandes diferenças de idades… inicialmente, foi um pouco estranho, mas ao longo do tempo adaptámo-nos, hoje falamos, rimos, mas sempre com respeito, embora a liberdade de vocabulário nos mais novos seja diferente, mas nós, os mais velhos, tornámo-nos mais tolerantes. Estamos no mesmo barco, por uma situação igual, por isso, temos de nos entender e de nos ajudar uns aos outros.
De volta à escola – Na infância, ingressou na escola por ser uma responsabilidade social… e agora? Qual o motivo para voltar ao sistema educativo?
Formando – O motivo foi o desemprego e esta formação permite-nos ficar com o 9º ano e também com uma profissionalização para uma maior abertura no mercado de trabalho.
De volta à escola – Que balanço faz das duas experiências formativas? Que conselho dá a adultos que estejam a pensar reingressar no sistema educativo?
Formando – Numa só expressão, VALE A PENA, mas acrescento, ficamos com mais conhecimentos, aprende-se a ter uma relação mais humana e o sentido de vida é diferente, é bastante gratificante. Se tiverem essa oportunidade, aproveitem! Repito: VALE A PENA!
Nenhum comentário:
Postar um comentário